terça-feira, 17 de maio de 2011

Fotos das maravilhas de Alagoas ... pena ser um privilégio de poucos escolhidos poder contemplar...



Entrevista dada ao site www.reporteralagoas.com.br, publicada em 17/05/2011

17/05/2011
Uma proposta de direitos humanos e educação para Alagoas
Foto: Cristiane Pepe

Ana Cláudia Laurindo- é cientista social
Cristiane Pepe- é doutora em Educação

A paulista Cristiane Pepe é professora da Universidade Federal de Alagoas, está conosco há sete anos, é membro da REDHBRASIL de Direitos Humanos e coordenadora do Programa Escola Ativa, de Educação do Campo, que é uma parceria entre UFAL/SEE/SECAD/MEC e participa do Grupo de Pesquisa ERER (Educação e Relações Étnico-Raciais) da UFAL. Para além da simpatia que esbanja, oferece contribuição singular ao pensamento sócio-educacional, principalmente quando o foco é a humanização do indivíduo. Em diálogo aberto, obtivemos as seguintes respostas:

Percebemos que a sociedade em geral, se confunde quanto ao sentido da garantia dos Direitos Humanos, esse senso comum interfere na prática educativa?

Sim, interfere muito. As pessoas estão gradativamente perdendo a capacidade de dialogar, se embrutecendo. Outro dia eu dizia isso em uma das turmas de 1º. período de um curso de licenciatura na Universidade, pois todo tema polêmico que surgia na sala de aula se transformava logo em um espaço de disputa, onde os alunos não respeitavam o ponto de vista do outro, querendo sempre impor sua visão, ao ponto de termos que encerrar o debate por falta de diálogo, antes que terminasse em discussão pessoal. O que é isso, senão a falta da capacidade de dialogar?!

A população, de forma geral, conhece pouco sobre Direitos Humanos e Sociais, o que se ouve comumente é que “direitos humanos só existem para bandidos”, quando na verdade eles existem para todos, mas nos são negados no dia a dia. É preciso que reivindiquemos esses direitos cotidianamente, que conheçamos o próprio Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado pelo Governo Federal e que incorporemos esses conhecimentos na prática educativa.

Trabalhar com Direitos Humanos em sala de aula é mais do que um conteúdo, tem que ser uma prática educativa cotidiana. Se pretendemos que a educação de fato seja um processo humanizador, como acreditava Paulo Freire. Pois vivemos na sociedade moderna a banalização e naturalização do mal em todos os sentidos.

Como professora-doutora do Centro de Educação da UFAL, qual sua percepção acerca das contribuições que a universidade pode dar aos graduandos e pós-graduandos de Pedagogia, para que se apropriem do conceito original de Direitos Humanos?

O Centro de Educação, em parceria com a EDHESP, iniciou recentemente um Curso de Especialização em Direitos Humanos, sob a coordenação da Professora Mara Rejane Ribeiro, de Serviço Social, do qual faço parte. Isso significa um avanço da Universidade, no sentido de contribuir não só para aprofundar o conhecimento de 465 pessoas que estão cursando a Especialização, mas de prepará-las para serem agentes de Direitos Humanos no nosso Estado que, segundo dados novos do IBGE divulgados nas últimas semanas, é o Estado mais pobre da Federação, com a maior concentração de pessoas vivendo em situação de extrema pobreza (denominação dada pelo Governo Federal às pessoas que vivem com até R$ 70,00 por mês), para as quais nem mesmo o direito humano fundamental, que é o direito à vida, é assegurado de fato.

É preciso reconhecer, no entanto, que essa ainda é uma iniciativa muito tímida num Estado como o de Alagoas. Necessitamos de muito mais investimentos e contribuições por parte da Universidade, que deve se fazer mais presente na sociedade alagoana, uma vez que ela é o lócus privilegiado para isso, provocando o debate acerca dos Direitos Humanos, fazendo com que os diferentes atores e instituições sociais se posicionem, pensem políticas e formas de intervir na realidade, pois vivemos algo muito próximo a uma guerra civil em Alagoas, com um número assustador de homicídios, principalmente entre os jovens, acumulando a liderança dos piores índices sociais da Federação (IDH, prostituição infantil, mortalidade infantil, mortalidade de mulheres, entre outros).

Conhecer a proposta de defesa e garantia dos Direitos Humanos pode diferenciar a prática educativa, beneficiando os alunos?
Não só beneficiando os alunos como os próprios professores, que também desconhecem todo o debate e toda a produção existente sobre Direitos Humanos e, que, infelizmente ainda não faz parte do currículo de formação de professores. Quando existe algum debate sobre Direitos Humanos nos cursos isso se deve a iniciativas isoladas de um professor ou outro, quando na verdade deveria ser uma prática de todo e qualquer educador, uma vez que compõe a gênese da docência a emancipação humana. Minha orientadora costumava dizer que na Educação nós trabalhamos com o melhor que o ser humano tem que é seu potencial criativo, humano, belo, ao contrário de outras profissões que lidam com as fragilidades e desvios do comportamento humano, já tão pouco humano atualmente.

Quais são os benefícios imediatos ou não, de uma prática docente humanista, para a sociedade?

Os benefícios poderiam ser sentidos tanto de imediato, quanto em longo prazo, pois trata-se de um processo de formar gerações sobre um outro paradigma, no qual, como diz Caetano Veloso em uma de suas músicas “morrer de fome, de raiva ou de sede...” não sejam simplesmente “gestos naturais”, mas que esse processo de injustiça social que vivemos seja de fato refutada e não banalizada e tornada natural.

Dejours, um estudioso francês, diz que a injustiça social só existe quando algo nos indigna, quando nos sentimos violentados, chocado com os processos vivenciados cotidianamente e, que processos naturais são aqueles que não nos perturbam, que não ficamos indignados diante de um fato/acontecimento, algo que deve acontecer, porque é a lei da natureza. Como educadores temos a obrigação de nos indignar diante de processos de injustiça social, diante da miséria que assola famílias inteiras, jogando-as na indigência, diante das desigualdades que já nascem conosco de berço, diante de desvios de milhões de reais da merenda escolar para serem utilizados em futilidades, quando nossas crianças estão passando fome, diante, principalmente, da negação do nosso direito fundamental: VIVER e com dignidade!






Repórter Alagoas® 2011.
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